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A.F.L. 27 anos, economista, consultor em multinacionais e professor universitário relata o seu "renascer"

"- Quando criança sempre fui muito agitado, curioso, inquieto, "respondão", assim como aquele personagem "Dennis - o pimentinha". Já quebrei os dois braços, dedos, etc., por ter ações impulsivas, sem medir as possíveis conseqüências. Sempre tive facilidade na escola, mesmo não tendo paciência para prestar atenção na aula inteira, nem para estudar para as provas. As observações que minha mãe sempre escutava dos professores nas reuniões de pais eram "... ele é muito inteligente, faz os exercícios rápido, mas não pára quieto, conversa muito e atrapalha os outros alunos..." Meu jeito respondão levou-me a ser taxado, por algumas pessoas, de mal-educado, preguiçoso, vagabundo, etc.

Minha inquietação da infância transformou-se em impaciência na idade adulta, levando a uma personalidade altamente "estressável". Bastava, por exemplo, o semáforo fechar quando eu me aproximasse para que, sem exagero, meu dia se estragasse. Não gostava de conversar com pessoas mais "calmas", logo as interrompia com uma frase ou uma resposta a uma pergunta ainda não terminada! Minha curiosidade levou-me a "querer saber" sobre os mais variados assuntos, mas sem paciência para aprofundar-me em nada. Minha impulsividade me fazia dizer coisas das quais, instantes depois, me arrependia; às vezes, mesmo sabendo que deveria calar, vinha aquele impulso e.... falava!

Essas características e essa "culpa" de não conseguir fazer as coisas todas com que me comprometia (várias, pois queria fazer mil coisas ao mesmo tempo) da melhor forma que meu potencial me permitia, criaram em mim uma sensação de incompetência, de incapacidade, de anormalidade. Então eu precisava provar às pessoas que eu não era preguiçoso, mal-educado, etc. Lembrando do conceito durkeineano de "ator social", acabei por criar uma "máscara", um "eu" que provasse a todos que eu era o aluno brilhante, o filho bem-educado, o amigo leal, o profissional competente, o namorado sempre compreensivo e amoroso. Criar essa "máscara" fez com que eu passasse a me relacionar com os outros através dela, sem deixar que alguém, jamais, conhecesse o "eu" escondido atrás dela, pois descobririam que, na verdade, eu não seria nada daquilo.

Essa "atuação" diária e constante com todos à minha volta tornou-me uma pessoa com medo, sem auto-estima. Eu me sentia uma fraude, uma farsa! Jamais poderia baixar a guarda, por mais que as coisas estivessem bem, a sensação era de que algo ruim estava por acontecer. Isso me deprimia! A incapacidade de me concentrar no que quer que fosse me fazia questionar se, de fato, eu seria muito inteligente ou, ao contrário, havia criado uma forma de "burlar" o teste de QI. O resultado de 160 surpreendeu-me muito porque na verdade eu busquei o teste achando que fosse "retardado".

Com todo esse processo, tornei-me muito mal-humorado.

Certo dia, navegando na internet, encontrei uma matéria de jornal que dizia algo como "Mal-humor crônico é doença e precisar ser tratado", lendo a matéria identifiquei-me com a distimia... mas na verdade era só conseqüência do que eu realmente tenho. Buscando mais encontrei o site UniversoTDAH e pensei que estivesse falando de mim: "- Você está me descrevendo, este sou eu!"... Após alguma hesitação busquei ajuda e veio o diagnóstico: sou DDA.

Hoje sei que minha inquietação, minha curiosidade inesgotável, meu jeito intempestivo e respondão de ser, minha irritabilidade, minhas crises depressivas, meus desinteresses repentinos, minha impaciência, eram fruto desse transtorno. Agora sei que não sou retardado, que não burlei nenhum teste que QI, que a minha inquietação era, de fato, hiperatividade. A "descoberta" do DDA foi como renascer... sim, esta é minha sensação: eu renasci depois da descoberta do DDA.

Com a medicação passei a conseguir me concentrar, a pensar mais antes de agir, a controlar minha compulsão. Com a terapia estou aprendendo a me relacionar com as pessoas sem usar aquela máscara, sendo eu mesmo, sem ter medo de que as pessoas me conheçam. Hoje consigo aceitar a idéia de não ser "o perfeito" o tempo todo, não tenho essa obrigação, aliás, aprendi que isso é impossível! Aprendi que não preciso acertar 100% das vezes, que, sendo humano, sou passível de cometer erros.

Hoje foco mais minhas qualidades que, modéstia à parte, são muitas, mas quase ficavam despercebidas, principalmente para mim, diante da importância que eu dava aos mínimos erros que cometia: eu tinha que ser perfeito!

Permito-me também dizer não àquilo que não quero, permito-me ser eu mesmo, gostem ou não. Claro que sei que vivo em sociedade e que, portanto é necessário respeitar limites, é necessário que me coloque no lugar dos outros, mas sei que eu tenho a responsabilidade de me fazer feliz, ninguém mais! Minha felicidade depende de mim. Se eu não buscar meus interesses, ninguém o fará.

Estava noivo, mas não queria casar, não por causa da minha noiva (que sempre foi uma pessoa muito boa comigo), mas porque eu não estava preparado para isso, então, sentia-me como que obrigado a fazer algo que não queria... mas não casei, tive coragem de cancelar o casamento dois meses antes, com tudo preparado - cerimônia, festa, música, padrinhos, convites, etc. Não poderia fazer aquilo que meu coração não queria, sabia que se o fizesse seria infeliz, o que certamente teria acontecido se não tivesse começado o tratamento: só com a confiança que adquiri poderia enfrentar as críticas, indignações e/ou desaprovações (naturais na situação) de todos que faziam parte da história. Mas eu me senti vitorioso, consegui agir por mim, para mim, defendendo-me mesmo que todas as "regras sociais" dissessem o contrário.

Hoje eu e minha ex-noiva somos amigos (felizmente ela entendeu minha condição), nos damos bem! Aliás, agradeço a ela por ter estado comigo todos aqueles anos, aprendi muito com ela, devo muito a ela!

Também tenho de agradecer aos meus amigos de trabalho, pois estiveram comigo nos momentos mais turbulentos, sempre me ajudando (eu os "fiz" ler sobre o DDA para que eles entendessem). Somente então foi que percebi a importância em ter amigos, em cuidar bem do nosso relacionamento, a ter empatia! Hoje nossa relação é muito melhor (ao menos para mim... rs), pois consigo ser mais solto, mais alegre, mais natural, mais eu mesmo!

Ainda tenho muito a aprender (até porque "nasci" há pouco), sei disso, assim como também sei que meus "instintos compulsivos" estarão sempre lá e, se eu não me policiar 24 horas por dia, posso agir de forma tempestiva e obter resultados contrários aqueles que planejo.

Mas hoje eu me sinto uma pessoa melhor, sou uma pessoa mais calma, hoje eu me sinto feliz!"

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